A violência contra a mulher começa entre homens e é entre eles que deve terminar por Thiago de Moraes

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A violência contra a mulher começa entre homens e é entre eles que deve terminar por Thiago de Moraes

A violência contra a mulher começa entre homens e é entre eles que deve terminar por Thiago de Moraes

Toda vez que um feminicídio acontece, o país reage com indignação.

Nas redes sociais surgem manifestações de revolta, autoridades prometem endurecer leis e especialistas analisam o caso sob diversas perspectivas.

Passados alguns dias, porém, o assunto desaparece do debate público — até que uma nova tragédia ocupe o mesmo espaço.

Essa repetição revela algo inquietante: a sociedade ainda não compreendeu plenamente onde começa o problema.

O feminicídio costuma ser tratado como uma violência que precisa ser enfrentada pelas mulheres.

São elas que recebem orientações para denunciar, para reconhecer sinais de perigo ou para buscar proteção institucional.

Embora essas medidas sejam necessárias, há uma contradição evidente nesse raciocínio: a responsabilidade pela mudança continua sendo atribuída a quem sofre a violência, e não a quem a pratica.

A verdade, por mais simples que pareça, raramente é colocada de forma direta no centro do debate: o feminicídio é um crime cometido majoritariamente por homens.

Se essa é a realidade, o enfrentamento dessa tragédia precisa começar justamente entre eles.

Durante muito tempo, a violência doméstica foi protegida por uma espécie de pacto silencioso.

Conflitos dentro de casa eram considerados assuntos privados, muitas vezes tratados com indiferença social.

Esse silêncio permitiu que comportamentos abusivos se reproduzissem ao longo de gerações sem sofrer contestação efetiva.

O feminicídio, entretanto, quase nunca surge de forma repentina.

Antes do crime extremo, existe quase sempre uma sequência de comportamentos que sinalizam o risco: controle sobre a vida da parceira, ciúme obsessivo, isolamento social, ameaças ou agressões psicológicas.

Esses sinais raramente permanecem invisíveis. Amigos, colegas de trabalho ou familiares costumam perceber mudanças no comportamento do agressor.

O problema é que, na maioria das vezes, ninguém intervém.

Entre homens existe uma cultura de proteção silenciosa que frequentemente impede o confronto direto com atitudes abusivas.

Comentários que diminuem mulheres, discursos que associam masculinidade à posse ou ao domínio emocional ainda encontram espaço em muitos ambientes sociais.

Quando esse comportamento é tratado como algo banal, cria-se um terreno fértil para que a violência evolua.

Romper esse ciclo exige uma mudança profunda na forma como os homens se posicionam diante dessas situações.

Combater o feminicídio não significa apenas apoiar campanhas ou condenar crimes depois que eles acontecem. Significa questionar comportamentos no momento em que eles aparecem.

Significa recusar a naturalização do ciúme possessivo, da agressividade como demonstração de autoridade ou da ideia de que relações afetivas são espaços de controle.

Homens precisam conversar entre si sobre esse tema.

Essa conversa não deve ocorrer apenas em espaços acadêmicos ou institucionais.

Ela precisa acontecer nos círculos de amizade, nas famílias, nos ambientes de trabalho e em qualquer espaço onde se formam referências de comportamento masculino.

Quando atitudes abusivas deixam de ser toleradas nesses ambientes, a cultura que sustenta a violência começa a perder força.

Existe também uma dimensão educativa que não pode ser ignorada.

Meninos aprendem o que significa ser homem observando os adultos ao seu redor.

Quando presenciam modelos baseados em respeito, diálogo e responsabilidade emocional, desenvolvem uma compreensão mais equilibrada das relações humanas.

Quando, ao contrário, encontram referências de dominação ou agressividade, reproduzem esses padrões no futuro.

A transformação cultural necessária para enfrentar o feminicídio passa inevitavelmente por essa formação.

Leis são fundamentais para punir crimes e proteger vítimas, mas nenhuma legislação, por mais rigorosa que seja, consegue substituir a mudança de mentalidade que precisa ocorrer dentro da sociedade.

O direito atua depois que a violência acontece; a cultura tem o poder de impedir que ela se torne aceitável.

O feminicídio não é apenas um problema de segurança pública ou de política criminal.

Ele revela uma crise mais profunda na maneira como parte da sociedade ainda compreende relações de poder, afeto e convivência.

Enquanto o enfrentamento dessa violência for tratado apenas como uma causa das mulheres, a sociedade continuará lidando com suas consequências sem atacar suas origens.

O combate ao feminicídio precisa deixar de ser apenas uma pauta de defesa feminina para se tornar também um compromisso masculino.

Porque, quando homens se calam diante da violência, o silêncio também se torna parte do problema.

E nenhuma sociedade que deseja se chamar civilizada pode aceitar que metade de sua população continue vivendo sob a ameaça de morrer simplesmente por ser mulher.

Artigo de Thiago de Moraes Procurador, Cientista Político, Jurista, Professor e Jornalista MTB 0091632/SP.
Fonte: Maria Genovesi

Por: Rosilene Bejarano

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