Revisão internacional associa dietas vegetarianas e veganas a maior risco de fratura de quadril. Para o ortopedista Lafayette Lage, a questão está menos na carne e mais no que se coloca no lugar dela.
Quem acompanha a rotina de feiras orgânicas, restaurantes e academias em Santa Catarina percebe: tirar a carne do cardápio, ou todos os alimentos de origem animal, virou escolha comum, longe de ser exclusividade de pequenos grupos. Com a mudança de hábito, chegaram também perguntas novas para a medicina. Uma delas tem ocupado os ortopedistas: o que esses padrões alimentares fazem com os ossos ao longo dos anos?
Uma revisão sistemática com meta-análise publicada na Nutrition Reviews trouxe números para o debate. Os pesquisadores reuniram quatro estudos, com 529.672 participantes no total, e encontraram associação entre dietas vegetarianas e veganas e maior risco de fratura de quadril, em comparação com quem consome carne.
Nos dados agrupados, o risco foi 25% maior entre vegetarianos e 75% maior entre veganos. A força dessas conclusões, porém, não é a mesma: os próprios autores classificaram a certeza da evidência como baixa no caso dos vegetarianos e muito baixa no dos veganos. Os números pedem atenção, mas não sustentam uma leitura apressada de causa e efeito.
Para o ortopedista Lafayette Lage, especialista em cirurgia e preservação do quadril, o estudo leva a conversa para além da escolha entre comer ou não produtos de origem animal. O que pesa, na avaliação dele, é a qualidade nutricional da dieta e a capacidade de oferecer ao corpo o que ele precisa para manter massa óssea e muscular ao longo da vida.
O assunto merece cuidado porque fratura de quadril está longe de ser um episódio ortopédico menor. Envolve cirurgia, reabilitação e, muitas vezes, perda de autonomia, sobretudo entre os mais velhos. Segundo a revisão, a mortalidade no primeiro ano após a cirurgia pode chegar a 36%, com risco de complicações cardiovasculares, pulmonares, trombóticas e infecciosas. Entre os que se recuperam, parte passa a depender de outras pessoas para tarefas que antes fazia sozinha.
Não é só uma questão de carne
A leitura médica exige precisão. O estudo não mostra que deixar a carne, por si só, provoque fratura. A saúde dos ossos depende de muitos fatores: idade, sexo, composição corporal, atividade física, alterações hormonais, peso, massa muscular, exposição ao sol e a alimentação como um todo.
O que os pesquisadores identificaram é que alguns nutrientes essenciais ao esqueleto podem ficar abaixo do necessário quando a dieta vegetariana ou vegana não é bem planejada. Na lista estão cálcio, vitamina D, zinco, proteínas e ácidos graxos ômega-3.
É aí que entra a ortopedia preventiva. Para Lafayette Lage, só olhar para o quadril quando aparecem dor, desgaste ou fratura é desperdiçar boa parte da chance de prevenir. O osso é tecido vivo e responde, por décadas, à alimentação, aos hormônios, ao exercício e à própria musculatura.
Músculo e osso caminham juntos. A revisão aponta que, em alguns estudos, vegetarianos e veganos apresentaram menor peso corporal e menos massa magra. Como a contração muscular gera carga mecânica sobre o esqueleto e ajuda a manter sua resistência, preservar músculo passa a ser também uma forma de proteger os ossos.
Atenção redobrada para as mulheres
Depois da menopausa, o tema ganha peso. A queda mais acentuada do estrogênio afeta diretamente a saúde óssea, e a idade, lembra o artigo, é fator decisivo para a perda de massa óssea e para o aumento gradual do risco de fraturas.
Um dos estudos incluídos traz um dado que interessa à prevenção. Entre mulheres veganas que não faziam suplementação, o risco de fratura de quadril foi quase três vezes maior que o das não vegetarianas. Já entre as que usavam cálcio e vitamina D combinados, aquele estudo não encontrou aumento estatisticamente significativo.
Isso não quer dizer que todo vegano deva sair comprando suplementos por conta própria. Quer dizer o oposto: dietas restritivas pedem planejamento, avaliação individual e, quando for o caso, correção orientada das deficiências.
A prevenção começa cedo
Para Lafayette Lage, pesquisas como essa ampliam a conversa sobre saúde do quadril no consultório. Quem adota uma alimentação vegetariana ou vegana não precisa abrir mão da escolha. Precisa entender que retirar certos grupos de alimentos exige atenção ao que vai substituí-los.
A própria revisão recomenda ingestão adequada de nutrientes, suplementação quando indicada, exercícios de resistência e acompanhamento da densidade mineral óssea nos casos apropriados.
Com isso, o debate muda de lugar. Em vez de opor vegetarianos, veganos e quem come carne, a medicina pode se concentrar numa pergunta mais útil: essa pessoa está recebendo, absorvendo e aproveitando o que seus ossos e músculos precisam?
Há também limites a reconhecer. Os estudos não avaliaram em detalhe a qualidade das dietas, por quanto tempo os participantes seguiram o vegetarianismo ou o veganismo, nem se mantiveram esses hábitos durante todo o acompanhamento. A maioria dos voluntários era europeia, e as informações sobre alimentação foram relatadas pelos próprios participantes, o que restringe a generalização dos resultados.
Afirmar que “veganismo causa fratura de quadril”, portanto, seria cientificamente errado. O que os dados mostram é um sinal de associação que merece atenção clínica e mais pesquisa.
Numa população que vive mais e quer se manter ativa por mais tempo, cuidar dos ossos deixou de ser assunto só da terceira idade. Para Lafayette Lage, o debate reforça uma ideia cada vez mais presente na ortopedia: o cuidado com o quadril não começa na sala de cirurgia. Começa anos antes, com exercício, preservação muscular, avaliação da saúde óssea e uma alimentação ajustada a cada fase da vida.
Em longevidade, viver mais é só parte da conta. O resto é chegar lá com mobilidade, independência e ossos capazes de sustentar essa vida.