Paramédica Priscila Currie alerta para diferenças em sintomas entre homens e mulheres
Ela estava há dois dias tomando antiácido.
A paciente relatava dor na “boca do estômago”, desconforto persistente e uma sensação de queimação que não melhorava. Achava que era gastrite. Só decidiu ligar para a ambulância quando começou a sentir um cansaço extremo e falta de ar.
Ao chegar ao local, após avaliá-la, eu mesma realizei o eletrocardiograma. Foi ali, analisando o traçado diante de mim, que identifiquei alterações compatíveis com infarto agudo do miocárdio já em curso.
Ela estava infartando havia dois dias.
Aquele atendimento trouxe para a realidade algo que eu já havia estudado na universidade e nos livros: o infarto em mulheres pode se apresentar de forma diferente. Foi muito interessante ver, na prática, diante de mim, algo que até então estava no campo teórico.
As doenças cardiovasculares são a principal causa de morte entre mulheres no mundo. Segundo a Organização Mundial da Saúde, elas são responsáveis por cerca de um terço de todas as mortes femininas globalmente. Nos Estados Unidos, as doenças cardíacas também lideram as causas de morte entre mulheres, de acordo com os Centers for Disease Control and Prevention.

Um dos motivos de muitas mulheres não chegarem a tempo ao hospital é que seus sintomas não são reconhecidos como infarto. Durante décadas, o modelo clássico amplamente divulgado foi o do ataque cardíaco masculino: dor intensa no peito, pressão esmagadora e irradiação para o braço esquerdo.
Nas mulheres, o quadro pode ser diferente.
Elas podem apresentar dor epigástrica, sensação de indigestão persistente, náusea, dor nas costas, pescoço ou mandíbula, falta de ar, cansaço extremo e mal-estar inespecífico. Como esses sinais não correspondem ao padrão mais conhecido, muitas acabam não levando a sério o que estão sentindo.
Isso contribui para atrasos no atendimento. E, em cardiologia, tempo é músculo cardíaco.
Existe o chamado infarto fulminante, geralmente associado à obstrução súbita de uma grande artéria coronária, levando à parada cardíaca rápida. Mas esses casos são menos comuns. Muitos infartos evoluem ao longo de horas ou até dias. Durante esse período, a pessoa pode continuar suas atividades normalmente sem perceber a gravidade do que está acontecendo.
Diante da suspeita, a orientação é clara: acionar imediatamente o serviço de emergência, manter a pessoa em repouso e, se não houver alergia ou contraindicação conhecida, administrar 300 mg de aspirina para mastigar. A aspirina não resolve o infarto, mas pode reduzir a formação de coágulos e ganhar tempo até o tratamento hospitalar definitivo.
Você deve estar se perguntando o que aconteceu com a paciente.
Como trabalho em Londres, existem hospitais especializados preparados para receber pacientes com infarto agudo do miocárdio. Quando o paramédico diagnostica o infarto ainda no atendimento pré-hospitalar, ele já comunica o hospital e ativa a equipe cardiológica antes mesmo da chegada.
Assim, quando a paciente chegou ao hospital, ela foi encaminhada diretamente para a sala de hemodinâmica, onde foi realizado o cateterismo cardíaco. Foram implantados três stents para desobstrução das artérias.
Hoje, ela vive bem. No entanto, devido ao atraso em procurar atendimento, desenvolveu insuficiência cardíaca como sequela do dano causado ao músculo cardíaco.
A história teve um desfecho positivo porque houve atendimento a tempo. Mas poderia ter sido diferente.
Reconhecer que o infarto feminino pode não seguir o padrão clássico é fundamental. Informação salva vidas.
Priscila Currie
Paramédica brasileira que atua em Londres. Formada desde 2014 pela St George’s University of London e conhecida nas redes sociais como @priscila_paramedica_londres.